Ismet Hajdari
Pristina (Kosovo) | AFP
O ex-presidente do Kosovo Hashim Thaci foi condenado nesta quarta-feira (16) a 25 anos de prisão por um tribunal em Haia por crimes de guerra, informou a corte em um veredito há muito aguardado e que provavelmente provocará comoção no país dos Bálcãs.
Os juízes afirmaram que Thaci, julgado ao lado de outros três ex-líderes guerrilheiros, é culpado por prisões ilegais, tortura, assassinato e tratamento cruel cometidos por combatentes guerrilheiros.

O ex-presidente do Kosovo, Hashim Thaci, inspeciona tropas da Força de Segurança, em Pristina – Armend Nimani – 13.dez.18/AFP
Na capital do Kosovo, uma multidão se reuniu para acompanhar ao vivo, em telões, a sentença de um homem que muitos reverenciam como herói.
Quando a decisão foi anunciada, a multidão ficou em silêncio, e muitos pareciam chocados com o resultado —após semanas de preparação de seus apoiadores para uma possível absolvição.
Os ex-integrantes do ELK (Exército de Libertação do Kosovo) Jakup Krasniqi, Rexhep Selimi e Kadri Veseli, companheiros de Thaci, também foram considerados culpados e condenados.
Krasniqi recebeu pena de 25 anos de prisão, Selimi, de 13 anos, e Veseli, de 18.
Segundo o tribunal, os quatro foram considerados criminalmente responsáveis pela detenção arbitrária e tortura de centenas de pessoas e por 96 assassinatos. No entanto, foram absolvidos das acusações de crimes contra a humanidade.

Albaneses do Kosovo reúnem-se durante um ato em Pristina, em 16 de setembro de 2026, para pedir a absolvição – Armend Nimani /AFP
A corte também afirmou que Thaci, Veseli, Selimi e Krasniqi “contribuíram significativamente”, durante o conflito no Kosovo, para um objetivo criminoso comum que tinha como alvo supostos opositores das metas políticas e militares do ELK.
Thaci renunciou à Presidência e se entregou ao tribunal após ser indiciado em 2020. Desde então, permanece detido em Haia, e o período já cumprido será descontado de sua pena.
‘Triste e injusta’
Para muitos no Kosovo, Thaci e o ELK são símbolos do movimento separatista local.
Após a guerra, Thaci continuou sendo uma figura política central e teve papel decisivo na declaração de independência, da Sérvia, em 2008.
Ao longo do julgamento, imagens do político de 58 anos, que também foi primeiro-ministro, apareceram em outdoors espalhados pelo país.

Um mural representando os ex-líderes Hashim Thaci, Jakup Krasniqi, Kadri Veseli e Rexhep Selimi, em Pristina – Valdrin Xhemaj – 14.set.26/Reuters
“Uma decisão terrível para o Kosovo, para nossa guerra de libertação. É uma decisão triste, injusta e imerecida”, disse o ministro das Relações Exteriores do Kosovo, Glauk Konjufca, à imprensa do lado de fora do tribunal.
A expectativa de uma possível libertação de Thaci e dos outros réus atraiu grandes multidões para uma manifestação no fim de semana. Nesta quarta-feira, centenas de pessoas voltaram a se reunir na capital antes do veredicto, em contagem regressiva para o anúncio da decisão.
Mas, assim que ficou claro que o ex-presidente continuaria detido, a praça ficou quase deserta em questão de minutos.
Cercado de controvérsias
As Câmaras Especializadas do Kosovo (KSC, na sigla em inglês), embora sediadas nos Países Baixos e compostas por juízes internacionais, foram criadas com base na legislação kosovar especificamente para julgar supostos crimes cometidos por integrantes do ELK durante a guerra.
Antes da criação do tribunal, processos anteriores no Kosovo fracassaram em grande parte devido a supostas intimidações de testemunhas e interferências políticas.
Profundamente impopular desde sua criação, o tribunal alimentou ainda mais as acusações de parcialida de política ao usar provas fornecidas por Belgrado, que ainda se recusa a reconhecer a independência de sua antiga província.
Ao longo do julgamento, os promotores procuraram distinguir a luta pela independência do país dos homens levados ao banco dos réus.
Eles afirmam que os quatro são responsáveis por crimes cometidos contra prisioneiros mantidos em centros de detenção do ELK no Kosovo e na vizinha Albânia, além dos assassinatos por motivação política de civis sérvios, albaneses e ciganos.
Os crimes foram cometidos durante e logo após a guerra do Kosovo, que deixou cerca de 13 mil mortos.
Em resposta, os advogados dos réus argumentaram que o ELK não possuía uma estrutura rígida de comando e que seus principais dirigentes não podiam controlar nem ser responsabilizados pelos combatentes que cometeram crimes.
Veículo: Folha Uol











