Buenos Aires, Milão e Xangai
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras deste domingo (4) repercutiu na imprensa internacional.
Veículos dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina destacaram o avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e associaram o resultado ao crescimento de líderes de direita na região.
Veja como ficou a apuração do 1º turno por todo o Brasil

Jornalistas acompanham resultados da votação do primeiro turno das eleições, no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília – Mateus Bonomi – 4.out.26/Reuters
Para o jornal francês Le Monde, “Lula paga o preço pelo descontentamento dos eleitores”, enquanto publicações como o The New York Times e o El País apontaram fragilidades na coalizão governista e o peso do endividamento das famílias brasileiras na decisão do voto.
Lá Fora
Imprensa dos EUA diz que Brasil é ‘troféu que falta’ para Trump
“Se Bolsonaro derrubar Lula no segundo turno, será a maior vitória até agora para a direita em ascensão da América Latina”, diz o The New York Times. O jornal norte-americano destaca que uma possível vitória do senador do PL também pode levar ao poder um aliado entusiasmado de Donald Trump e ajudar Washington a avançar em seu objetivo de dominar a região.
O jornal classifica o Brasil como o “troféu que falta” para a Casa Branca e lembra que o filho de Jair Bolsonaro (PL) prometeu fortalecer laços comerciais com os Estados Unidos.
“Se Lula conseguir se recuperar do revés de domingo, isso pode ser visto como uma resistência à direita latino-americana. Enquanto[muitos outros líderes latinos se alinham](https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/eleicao-no-brasil-pode-ser-freio-ou-impulso-a-projeto-de-trump-na-america-latina-diz-pesquisadora.shtml), Lula desafiou Trump diversas vezes, alertando-o para não se intrometer nos assuntos de seu país.”

Lula paga preço do descontentamento, diz francês
Para o francês Le Monde, “Lula paga o preço pelo descontentamento dos eleitores”. O jornal narra que a festa de petistas reunidos no Rio de Janeiro para aguardar os resultados rapidamente se transformou em “um comício melancólico”.
“Vestidos de vermelho, apoiadores do presidente Lula, com rostos fechados e cerveja na mão, seguiram uma grande tela onde os resultados eram exibidos. Alguns analisavam nervosamente seus celulares para checar se os números eram reais. Outros enfrentaram os fatos: choravam ou apoiavam a cabeça nas mãos.”
A publicação ressalta que os resultados deste domingo comprovam que o bolsonarismo segue vivo no Brasil e que virar o resultado no segundo turno será um dos maiores desafios da carreira política de Lula.

O presidente Lula (centro) se pronuncia cercado por apoiadores, em São Paulo, após a divulgação dos resultados do primeiro turno – Jin Haoyuan – 4.out.26/Xinhua
O Le Figaro diz que a votação de Flávio Bolsonaro surpreendeu porque as pesquisas apontavam uma leve vantagem para Lula até a véspera da eleição. Assim como em 2018, os institutos de pesquisa teriam subestimado a força da direita.
Segundo o Le Parisien, o herdeiro de Bolsonaro está prestes a vencer o duelo contra Lula. Antes de ser escolhido pelo pai como seu sucessor político, Flávio era relativamente pouco conhecido em âmbito nacional. Por isso, comemorou o resultado do primeiro turno, demonstrando confiança em uma vitória final no segundo turno de 25 de outubro.
Espanhol fala em eleitores perdidos por Lula
O espanhol El País fala em vitória “esmagadora” da direita e diz que o presidente Lula terá três semanas para tentar reconstruir a coalizão que em 2022 nasceu da rejeição de Jair Bolsonaro (PL) e vaticinou: “O retorno da extrema-direita está chegando”.
Segundo a publicação espanhola, a intenção de concorrer a um quarto mandato, que terminaria aos 85 anos, foi uma aposta profundamente pessoal de Lula, mencionando que o atual presidente perdeu votos em comparação a 2022.
“Ele mantém uma base eleitoral formidável e um legado de políticas sociais que transformaram a vida de milhões de brasileiros. Mas para parte desses eleitores, a economia diária, o crédito caro e o cansaço pesam mais do que a memória das conquistas.”

Manchete do jornal espanhol El País fala em ‘vitória arrasadora da direita no Brasil’ após resultados do primeiro turno – Reprodução
Argentino aponta ‘voto de castigo’ de eleitor de baixa renda
Nas palavras do jornal argentino Clarín, o que ocorreu neste domingo foi uma virada “surpreendente e dramática”. A publicação destacou a abstenção (21%), e interpretou o resultado como um voto de castigo dos eleitores de baixa renda, tradicionalmente fiéis a Lula, sufocados por dívidas.
“O país é um sucesso macro, com números notáveis, mas esses resultados não chegaram aos bolsos daquele grande espaço de eleitores que se endividam para pagar despesas básicas.”
Já o La Nación escreve que Flávio Bolsonaro se tornou a nova esperança da direita da América Latina, como representante do que o presidente Javier Milei chamou de “onda azul” de governantes de direita e ultradireita que têm sido eleitos no continente.
“É possível que Lula tenha alcançado seu teto e um limite muito claro, o que entra em conflito com uma sociedade cada vez mais conservadora e, portanto, de direita”, diz o diário argentino.
Veja fotos da visita de Javier Milei a Tarcísio de Freitas (Republicanos)

Jornais italianos citam ‘derrota desastrosa’ de Lula
O resultado do primeiro turno no Brasil foi destaque nos principais jornais italianos nesta segunda (5). Além da vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL), a imprensa comentou sobre o sucesso da família e o interesse do americano Donald Trump pela disputa.
“Não há dúvida de que se trata de uma vitória inesperada [de Flávio], mas também de uma derrota desastrosa para Lula, que aparecia em vantagem em todas as principais pesquisas”, escreveu Laura Lucchini, enviada especial ao Brasil do La Repubblica.
A publicação chamou a atenção para a eleição de Michelle Bolsonaro ao Senado. “A vitória vai além do peso simbólico do sobrenome”, diz. “É a primeira vez que o clã deve pensar no próprio futuro [sem o patriarca em campo](https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/se-eleito-flavio-planeja-implementar-no-itamaraty-reforma-importada-do-governo-trump.shtml). E Michelle, com seu perfil religioso e uma capacidade de mobilização que vai além da família, aparece como uma das possíveis protagonistas desta sucessão.”
Para o Corriere della Sera, foi uma “megaeleição à sombra dos Estados Unidos” e afirma que o programa de “Bolsonaro Jr.” imita “a receita do argentino Javier Milei”. “No plano internacional, Flávio se alinha à nova ‘internacional de direita’ guiada por Trump que nos últimos anos conquistou grande parte da América Latina”, escreveu o jornal.

Britânicos destacam mercado satisfeito com Flávio
O Financial Times ouviu analistas que destacaram que Flávio Bolsonaro é o favorito no segundo turno pois a maior parte dos candidatos à Presidência derrotados neste domingo, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), também é de partidos de direita, em uma eleição marcada por forte polarização.
Segundo o veículo, a campanha do PL prioriza combate ao crime organizado, redução de gastos públicos, maior aproximação com os EUA e a libertação de Jair Bolsonaro.
“O mercado reage positivamente à vantagem de Bolsonaro, diante da expectativa de maior rigor fiscal e reformas pró-crescimento; contratos ligados ao real e um ETF de ações brasileiras registraram fortes altas.”
A BBC destacou que a corrupção tornou-se um tema central na campanha brasileira, após o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A rede lembra que a fraude financeira envolve altos escalões do espectro político brasileiro, ministros do Supremo —com impacto indireto na campanha petista— e o próprio Flávio, que reconheceu que pediu a Vorcaro que financiasse a cinebiografia “Dark Horse”.
“Lula criticou a designação de facções brasileiras como terroristas pelos Estados Unidos, mas lançou várias reformas para combater as redes financeiras de crime organizado, melhorar investigações de homicídio e investir em prisões”, diz a BBC. “A economia também tem sido central para essa campanha: o país apresenta altos níveis de dívida pessoal e crescimento desacelerado.”
Joesley Batista e Milton Maluhy Filho participam de evento do Esfera Brasil em SP

Na Ásia, ‘fator EUA’ é citado
A Xinhua, principal portal de notícias da China, citou o “fator EUA” como uma das questões da eleição brasileira ao mencionar proximidade de Trump com Flávio. O site reproduziu a fala do candidato do PL na qual ele afirma que, se eleito, pressionaria para que o Brasil se tornasse um “aliado próximo” dos americanos.
O texto cita ainda a pressão tarifária de Washington sobre o Brasil e os desentendimentos entre os dois governos, mencionando, por exemplo, os vistos brasileiros negados a autoridades americanas.
O site menciona ainda a exigência de Trump pelo fim do processo contra Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar, e cita uma queda na confiança do brasileiro em relação aos EUA.
“Analistas acreditam que a confiança do público brasileiro nos Estados Unidos continua a diminuir, limitando a eficácia do apoio americano a Flávio Bolsonaro. Além disso, a forte interferência dos EUA nos assuntos internos do Brasil pode fortalecer o apoio ao governo Lula entre alguns eleitores”, afirma.
Na Coreia do Sul, o jornal especializado em economia Herald Economy também cita Trump como um fator de mobilização dos eleitores conservadores. “O candidato Bolsonaro angariou votos capitalizando-se na frustração dos eleitores decepcionados com a má gestão econômica do governo Lula”, diz.
Já o jornal sul-coreano Seoul Shinmun afirma que a “dinastia de extrema direita” assumiu a liderança da corrida presidencial, além de citar a eleição de Michelle e Carlos Bolsonaro para o Senado.
No Japão, a TV Kyoto também cita o posicionamento “pró-americano” de Flávio, enquanto o Nikkei destaca que as abordagens econômicas e diplomáticas dos candidatos apresentam opções de futuro contrastantes para o Brasil.
Com AFP.
Veículo: Folha Uol











