Ed Augustín Frances Robles
The New York Times
Milhares de contêineres carregados de alimentos, medicamentos e outros produtos destinados a Cuba estão retidos em diversos pontos do Caribe desde que duas gigantes do transporte marítimo suspenderam as entregas para evitar as duras sanções dos Estados Unidos, segundo diplomatas, autoridades cubanas, comerciantes e outras pessoas envolvidas nas importações.
Entre os contêineres retidos em vários portos estão carregamentos de ajuda humanitária, como painéis solares, medicamentos e bolsas de colostomia. Dezenas deles contêm ajuda adquirida por diferentes agências das Nações Unidas.
As sanções dos EUA também prejudicaram os transportes aéreos e obrigaram a Organização Mundial da Saúde a cancelar entregas previstas de medicamentos contra o câncer.

As dificuldades para entregar materiais essenciais agravaram drasticamente a escassez crônica, aumentaram a enorme fila de pacientes à espera de cirurgia e fizeram disparar os preços dos alimentos, enquanto os cubanos enfrentam a pior crise humanitária da ilha desde a revolução de 1959. Com os alimentos se tornando proibitivamente caros, a fome aumenta, e os refeitórios comunitários têm dificuldade para suprir essa carência.
O governo de Donald Trump impôs um forte cerco econômico a Cuba e ao Partido Comunista, que governa o país, na tentativa de forçar mudanças políticas e econômicas.
Em janeiro, o governo impôs um bloqueio de petróleo à ilha. Em maio, intensificou a pressão ao anunciar que empresas estrangeiras que trabalham com determinadas entidades estatais cubanas corriam o risco de ter seus ativos congelados e de ficar impedidas de fazer negócios com empresas e bancos dos EUA.
Pouco depois, a Hapag-Lloyd, empresa alemã de transporte marítimo, e a francesa CMA CGM —que, segundo especialistas, juntas entregavam pelo menos metade das importações de Cuba, inclusive a maior parte dos alimentos— deixaram de fazer entregas à ilha.
Além de aumentar a pressão sobre o governo cubano, a medida acrescenta mais uma camada de sofrimento à vida dos cubanos, que já enfrentam apagões diários, escassez de combustível e alimentos e o colapso do sistema de saúde.
A médica cubana Valia Rodríguez, que vive no Reino Unido e dirige uma instituição beneficente chamada Aid for the Caribbean, disse que um contêiner da Hapag-Lloyd abastecido por sua organização com mais de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) em kits de reanimação, bolsas de colostomia e tubos intravenosos deixou a Irlanda do Norte em abril. O carregamento chegou ao Porto de Mariel, em Cuba, em 4 de junho, um dia antes de as novas sanções contra empresas estrangeiras entrarem plenamente em vigor.
“Eles decidiram parar de descarregar os contêineres”, disse Rodríguez, referindo-se à Hapag-Lloyd.
Os contêineres foram enviados para o Panamá, onde, segundo a instituição, foi necessário pagar mais de US$ 6 mil (R$ 30 mil) em taxas de armazenagem, enquanto pacientes submetidos a cirurgias no cólon recorrem a medidas desesperadas. “Neste momento, as pessoas em Cuba estão usando sacolas plásticas, porque não há bolsas de colostomia”, disse Rodríguez.
Peças de reposição de uma usina elétrica desativada no Uruguai, doadas a Cuba pela companhia estatal de energia do país sul, não conseguiram sair de lá porque nenhuma empresa de transporte marítimo aceita levá-las à ilha, segundo diplomatas. Cuba sofreu pelo menos cinco apagões em todo o país neste ano, enquanto sua envelhecida rede elétrica entra repetidamente em colapso.
Embora o governo dos EUA tenha declarado explicitamente que suas sanções não pretendem proibir a entrega de alimentos e suprimentos médicos, Francisco Pichón, coordenador da ONU em Cuba e responsável pela resposta humanitária da organização, afirmou que as sanções estavam emperrando as operações de assistência porque as transportadoras evitavam correr qualquer risco.
“Estamos diante de algo muito real, um fenômeno chamado ‘cumprimento excessivo’”, disse Pichón. “O cumprimento excessivo é uma precaução realmente exagerada por parte das empresas para não se exporem a sanções.”
Até a semana passada, a operação de ajuda humanitária da ONU ainda aguardava a entrega de 30 contêineres com kits de tratamento de água, antibióticos, contraceptivos e testes de gravidez.
A falta de combustível de aviação também dizimou o tráfego aéreo para Cuba, interrompendo outra rota de entrega de cargas.
Apesar de meses de tentativas, milhares de frascos doados de um medicamento contra o câncer chamado doxorrubicina não conseguiram chegar à ilha depois que várias companhias aéreas suspenderam os voos para Cuba, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde.
A Organização Mundial da Saúde informou que medicamentos contra a tuberculose, comprados de uma empresa farmacêutica indiana e que deveriam ser enviados por via aérea pela DHL, foram devolvidos ao fabricante em maio, sem explicação. Outros carregamentos de ajuda humanitária tiveram de ser transportados em voos fretados especiais, disseram agências da ONU.
Empresas chegaram a cogitar o envio de suas cargas pelos EUA, porque os embarques provenientes de lá continuam chegando. Mas o custo do transporte adicional mais do que dobrou o preço de produtos mais baratos, como o arroz, tornando grande parte deles cara demais para ser vendida em Cuba, afirmou uma pessoa envolvida no comércio com o país, sob condição de anonimato para proteger as operações comerciais.
Segundo essa pessoa, empresários vêm discutindo se devem abandonar suas cargas em portos estrangeiros.
O Departamento de Estado afirmou que as sanções responsabilizam o regime cubano “corrupto” e seus financiadores, incluindo a Gaesa, conglomerado militar que controla grandes setores da economia da ilha.
Em comunicado ao The New York Times, o Departamento de Estado disse que a “cleptocracia flagrante” do governo e sua má gestão econômica direcionavam recursos escassos para beneficiar autoridades, militares e o aparato de inteligência, em vez do povo cubano.
“Nossa política rigorosa para Cuba restringe transações financeiras com entidades pertencentes ou controladas pelos serviços de segurança cubanos, a fim de privar o regime dos recursos usados para encher os próprios bolsos e oprimir violentamente o povo cubano”, afirmou o comunicado.
O secretário de Estado, Marco Rubio, disse a jornalistas em 8 de setembro que “se Cuba é um desastre humanitário, é porque seu regime é um desastre, porque o modelo econômico que segue não funciona”.
Rodolfo Benítez Verson, embaixador de Cuba perante as Nações Unidas em Genebra, disse recentemente ao Conselho de Direitos Humanos da ONU que mais de 7.000 contêineres destinados a Cuba estavam retidos.
“A crueldade não tem limites”, disse Benítez. “Eles terão de responder perante o povo cubano e não serão perdoados.”
A empresa alemã de transporte marítimo Hapag-Lloyd afirmou em comunicado ter tomado uma “decisão comercial” de não manter a rota marítima para Cuba e estar trabalhando para encontrar uma “solução rápida e prática” para a carga.
A empresa francesa CMA CGM informou em comunicado que havia retomado serviços limitados para transportar à ilha “cargas em conformidade com as normas”, como produtos agrícolas, medicamentos e dispositivos médicos.
Dada a dimensão do acúmulo, seriam necessários meses para que todos os contêineres chegassem à ilha, disseram empresários, diplomatas e trabalhadores humanitários. Com poucas rotas comerciais viáveis de transporte marítimo disponíveis, as exportações para Cuba despencaram.
As exportações brasileiras e mexicanas para Cuba caíram mais de 90% em julho, em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo estatísticas dos governos do Brasil e do México.
“Até dois terços da capacidade total de transporte de contêineres desapareceram”, disse Gordon Wilmsmeier, professor de transporte marítimo e logística global da Universidade de los Andes, na Colômbia.
Tornou-se tão difícil enviar suprimentos a Cuba que alguns países aliados recorreram às Forças Armadas. O México, que suspendeu os embarques de petróleo para Cuba em janeiro, depois que o presidente Trump ameaçou impor tarifas, usou navios da Marinha para entregar produtos como milhares de toneladas de arroz e feijão, além de sacos de leite em pó. A Força Aérea Brasileira transportou carregamentos de leite em pó.
Celso Amorim, um dos principais assessores de política externa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, disse em entrevista que o Brasil gostaria de fornecer combustível e mais ajuda a Cuba, mas teme a reação de Washington.
“Isso faz parte da realidade do mundo atual”, disse ele. “É complicado. Todas as empresas daqui —até mesmo as estatais ou quase estatais— têm interesses nos EUA e temem ser afetadas.”
Veículo: Folha Uol











