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Coreia do Sul desafia Trump e diz que não vai enviar tropas ao Irã

Choe Sang-Hun

Seul | The New York Times

O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, resistiu nesta sexta-feira (18) à pressão do governo Trump, declarando que seu país não enviaria tropas nem recursos militares para apoiar a guerra no Irã liderada pelos Estados Unidos.

Nas últimas semanas, o presidente Donald Trump provocou publicamente o líder sul-coreano, manifestando frustração com o que descreveu como a recusa de Seul em ajudar a defender o estreito de Hormuz —antes a principal rota de trânsito de petróleo do mundo— enquanto tropas americanas continuam estacionadas na Península Coreana para proteger a Coreia do Sul da Coreia do Norte.

Dois homens de terno escuro caminham lado a lado com cabeças inclinadas para baixo. Ao fundo, várias bandeiras dos Estados Unidos e da Coreia do Sul estão alinhadas em um ambiente interno.

O presidente dos EUA, Donald Trump (esq.), em encontro com o líder sul-coreano, Lee Jae-myung – Evelyn Hockstein – 29.out.25/Reuters

Nesta sexta-feira, Lee rejeitou firmemente qualquer envolvimento militar no conflito do Oriente Médio.

“Não haverá envio de tropas nem de recursos militares para participar desta guerra ou intervir nela”, disse Lee em uma entrevista coletiva.

Em vez de um envio para operações de combate, Lee observou que Seul estuda ampliar o alcance operacional de um destróier da marinha sul-coreana e de seus navios de apoio, posicionados ao largo da costa da Somália para operações de combate à pirataria.

Ele enfatizou que, mesmo que esses meios se aproximem do mar Vermelho ou do estreito de Hormuz, seu único objetivo será proteger petroleiros sul-coreanos e outras embarcações comerciais. Eles não participarão de nenhuma operação que possa ser interpretada como apoio à guerra no Irã, afirmou.

Embora Trump não tenha especificado o tipo exato de ajuda que espera de Seul, ele reclamou no mês passado que havia pedido a Lee “que nos desse uma mãozinha” no conflito, lembrando-o da presença militar americana na Coreia do Sul.

“Ele disse: ‘Não, obrigado’”, recordou Trump. “Entendo. Bem, então [por que estamos envolvidos em ajudá-los?](https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/missao-da-onu-ve-indicios-de-crimes-de-guerra-dos-eua-no-ira.shtml)”

Lá Fora

Essa não foi a única questão abordada nesta sexta-feira por Lee, que exibia uma expressão sombria. Quinze meses após o início de seu único mandato de cinco anos, seu índice de aprovação caiu para 37%, abalado tanto por problemas que se acumulam internamente quanto pelas tensões com o aliado mais importante da Coreia do Sul, os Estados Unidos.

No mês passado, Trump reduziu unilateralmente um dos exercícios militares conjuntos anuais dos Estados Unidos com a Coreia do Sul, classificando as manobras não apenas como caras, mas também como”totalmente inadequadas e hostis” à Coreia do Norte.

Ele afirmou que, durante todo o período em que esteve no cargo, a Coreia do Norte havia se mostrado “não ameaçadora e respeitosa”. Trump também se vangloriou de manter uma “relação muito boa” com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, mesmo diante do aumento da ameaça nuclear que o Norte representa para o Sul.

Internamente, o principal índice da Bolsa sul-coreana —antes elogiado como um dos maiores beneficiários do boom global da inteligência artificial— despencou, devastando as carteiras de milhões de investidores individuais que haviam sido incentivados pelo governo Lee a comprar ações. Lee também não conseguiu cumprir suas reiteradas promessas de conter a alta dos custos de moradia.

A oposição o acusa de buscar uma emenda constitucional que lhe permitiria concorrer a um segundo mandato, algo expressamente proibido pela Constituição atual. Sua Presidência também continua marcada pela suspensão de processos criminais contra ele por acusações que incluem violação das leis eleitorais e indução ao perjúrio.

A oposição afirmou que Lee tramava um projeto de lei especial para eliminar essas acusações, que, segundo ele, foram forjadas por seu adversário conservador e antecessor, o ex-presidente Yoon Suk-yeol, destituído após sofrer impeachment.

Nesta sexta-feira, Lee afirmou que, embora apoiasse uma revisão constitucional que permitisse a futuros presidentes concorrer a um segundo mandato, não tinha intenção de buscar a reeleição. Ele classificou essa possibilidade como “constitucionalmente impossível”. A alegação de que poderia disputar um segundo mandato, disse, não passava de uma “ofensiva política”.

Lee também afirmou apoiar a nomeação, pela Assembleia Nacional, de um promotor especial para investigar se políticos como ele, além de jornalistas, foram alvo de investigações criminais motivadas politicamente durante o governo Yoon. Mas disse não querer que esse promotor especial tenha o poder de retirar as acusações criminais já apresentadas contra ele.

“Isso se deve às minhas próprias deficiências”, disse Lee, referindo-se à queda acentuada de seus índices de aprovação. “Faltaram-me consideração, sensibilidade e comunicação.”

Lee também afirmou que seu governo continuava em negociações “intensas” com Washington sobre como implementar o amplo acordo anunciado pelos dois governos em novembro passado. Pelo pacto, Trump reduziu de 25% para 15% as tarifas sobre importantes produtos sul-coreanos exportados, incluindo automóveis.

Ele também prometeu apoio dos Estados Unidos aos esforços da Coreia do Sul para desenvolver submarinos de propulsão nuclear e enriquecer urânio para a geração civil de energia nuclear. Em troca, Lee se comprometeu a investir US$ 350 bilhões (R$ 1,8 trilhão) nos Estados Unidos.

Mas as negociações sobre a implementação do acordo estão paralisadas por divergências quanto aos detalhes, alimentando dúvidas de ambos os lados sobre a disposição do outro de cumprir o prometido.

Os Estados Unidos lideraram as forças das Nações Unidas que repeliram os invasores norte-coreanos durante a Guerra da Coreia, de 1950 a 1953, lançando as bases de uma aliança que já dura sete décadas.

As tropas sul-coreanas formaram o maior contingente estrangeiro a combater ao lado das forças americanas na Guerra do Vietnã.

Ainda assim, atender ao pedido de Trump de ajuda no Irã acarretaria sérios riscos políticos para Lee. Na última vez em que a Coreia do Sul enviou forças para um conflito liderado pelos Estados Unidos —a Guerra do Iraque, iniciada em 2003—, o governo progressista do então presidente Roh Moo-hyun enfrentou uma feroz reação interna, sobretudo de seu próprio partido e de sua base.

Embora o contingente fosse composto principalmente por unidades de engenharia e médicas, a decisão prejudicou de forma permanente os índices de aprovação de Roh.

A opinião pública na Coreia do Sul continua contrária à intervenção. Uma pesquisa realizada neste mês mostrou que 55% dos sul-coreanos se opõem ao envio de tropas para o conflito com o Irã, ante apenas 32% favoráveis.

Vídeo 2

Veículo: Folha Uol

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/coreia-do-sul-desafia-trump-e-diz-que-nao-vai-enviar-tropas-ao-ira.shtml

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