Istambul | AFP e Reuters
A polícia da Turquia realizou, na madrugada deste domingo (13), uma série de batidas e detenções em bares, organizações e residências de ativistas LGBTQIA+. O governo conservador de Recep Tayyip Erdogan diz que a operação tem como objetivo proteger a família tradicional, mas organizações de direitos humanos veem a ação como mais um capítulo da repressão à comunidade no país.
As autoridades afirmam que ao menos 47 pessoas foram detidas —26 delas em Istambul e outras 21 em Ancara. O ministro da Justiça, Akin Gürlek, afirmou que as operações resultaram em processos judiciais contra 162 suspeitos, nove associações e 13 empresas em 15 províncias, incluindo Istambul, Ancara e Izmir, as três principais cidades do país.

Ativistas LGBTI+ participam de uma marcha da Parada do Orgulho em Ancara, na Turquia, apesar da proibição imposta pelo governo – Efekan Akyuz – 20.jun.26/Reuters
As operações, batizadas de “Minha Família Está Segura”, fazem parte do programa “Década da Família”, criado por Erdogan para “proteger nossas crianças, a instituição familiar e a ordem social”. A iniciativa também busca combater a queda da taxa de natalidade e o envelhecimento da população turca.
Em Istambul, a polícia fez buscas em vários bares frequentados pela comunidade LGBT e em uma boate considerada um refúgio para a comunidade, segundo imagens divulgadas por veículos de comunicação pró-governo. As autoridades afirmaram ter apreendido drogas, equipamentos digitais, bebidas alcoólicas contrabandeadas e uma arma de fogo.
A associação Kaos GL, uma das principais organizações de defesa dos direitos LGBT+ da Turquia, afirmou que seu escritório em Ancara foi vasculhado e que ao menos 50 ativistas foram detidos. Deste total, 10 teriam sido presos em operações policiais realizadas em suas casas.
A entidade disse ainda que é alvo de uma investigação por “obscenidade”.
O relator do Parlamento Europeu para a Turquia, Nacho Sanchez Amor, afirmou que as prisões são “uma escalada chocante” da repressão no país. “A imposição de uma agenda moral é uma flagrante violação dos direitos fundamentais e dos compromissos internacionais da Turquia, levando o país por um caminho sombrio”, disse Amor em uma publicação no X.
Na véspera das operações, as autoridades já haviam bloqueado a conta da Kaos GL no X, além de perfis de cerca de 15 organizações e ativistas LGBT+. Segundo a associação, dezenas de sites e contas ligados à comunidade também tiveram o acesso bloqueado.
Segundo as autoridades turcas, as investigações apontam para uma suposta influência inadequada sobre crianças e adolescentes em questões relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero.
Grupos de defesa dos direitos humanos rejeitam essa versão e acusam o governo Erdogan de usar esse discurso para intensificar a repressão à comunidade LGBT nos últimos anos, com retórica mais hostil e novas restrições. Em sua última campanha, Erdogan chegou a caracterizar as pessoas LGBT como uma ameaça à sociedade.
País secular de maioria muçulmana, a Turquia não criminaliza a homossexualidade e tem leis contra a discriminação. Mas pessoas LGBT narram que têm dificuldade em encontrar emprego, moradia segura e atendimento médico de boa qualidade, além de não se sentirem completamente aceitos por seus amigos, familiares, vizinhos e colegas de trabalho.
Nos últimos anos, o governo de Erdogan tem imposto novas restrições à sua visibilidade na sociedade. As universidades fecharam os clubes estudantis da comunidade e, desde 2014, as autoridades proibiram os desfiles de orgulho LGBT nas grandes cidades, incluindo Istambul, que atraía dezenas de milhares de participantes.
Desde o início de sua carreira política nacional, em 2003, Erdogan aumentou seu próprio poder e promoveu uma visão muçulmana conservadora da sociedade. Ele insiste que o casamento só pode unir um homem e uma mulher e incentiva as mulheres a ter três filhos, para construir a nação.
Defensores dos direitos humanos dizem que, à medida que o poder de Erdogan aumentou, sua visão conservadora se infiltrou no resto da sociedade, incentivando autoridades locais a restringir atividades LGBT e as forças de segurança a reprimir o ativismo em favor dos direitos desse grupo.
Veículo: Folha Uol











