Home / Mundo / Escassez de interceptadores dos EUA deixa Ucrânia exposta a mísseis russos

Escassez de interceptadores dos EUA deixa Ucrânia exposta a mísseis russos

Christopher Miller

Kiev | Financial Times

As equipes de defesa aérea de Kiev ficaram impotentes durante as recentes ondas de ataques com mísseis balísticos da Rússia por um motivo simples: seus lançadores de mísseis interceptadores Patriot estavam vazios.

A grave escassez da única arma capaz de abater os projéteis balísticos russos disparados contra a Ucrânia está expondo uma lacuna crítica nas defesas do país, enquanto Moscou intensifica seus ataques às vésperas do inverno.

Militares ucranianos passam ao lado de sistema de interceptadores Patriot em local não identificado na Ucrânia, em agosto de 2024 – Valentyn Ogirenko – 4.ago.24/Reuters

Autoridades ucranianas disseram que o país já havia usado o pequeno número de interceptadores fornecidos por Washington nas últimas semanas quando mísseis atingiram a capital, em 5 de agosto e novamente três dias depois. Em ambos os ataques, a Ucrânia não interceptou nenhum dos projéteis disparados contra a capital.

Os ataques acentuaram em Kiev o temor de que a vantagem que o país parecia ter conquistado no início do verão do Hemisfério Norte com ataques de longo alcance dentro da Rússia possa se dissipar antes do inverno, à medida que a cautela dos Estados Unidos quanto a uma escalada do conflito e os estoques reduzidos dos aliados deixam a Ucrânia exposta à crescente campanha de mísseis de Moscou.

A Força Aérea da Ucrânia informou que a Rússia lançou 24 mísseis balísticos, 4 mísseis antinavio e 115 drones contra Kiev em 5 de agosto. Embora 98 drones tenham sido abatidos, nenhum dos mísseis foi interceptado. Três dias depois, outros 6 mísseis balísticos russos atingiram alvos na capital, matando três pessoas, segundo autoridades ucranianas.

Lá Fora

Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

Carregando…

A escassez tornou-se tão aguda que a Força Aérea da Ucrânia deixou de divulgar rotineiramente o número de mísseis disparados pela Rússia, para evitar revelar quantos deles não consegue interceptar, disseram autoridades ucranianas ao FT. Segundo elas, a mudança foi feita por motivos de segurança, mas também, em parte, para preservar o moral da população.

“Sem dúvida, precisamos de mais proteção para o nosso povo”, escreveu o presidente Volodimir Zelenski no X após o bombardeio, criticando os parceiros da Ucrânia pela demora em fornecer defesas aéreas adicionais.

“Capacidades antibalísticas, mísseis interceptadores para Patriot, SAMP/T, NASAMS, Hawk e nossos F-16 —tudo isso funciona e ajuda a proteger vidas quando está aqui, na Ucrânia, em vez de ficar armazenado em depósitos a milhares de quilômetros dos ataques russos contra a vida”, afirmou.

Kiev estima precisar de pelo menos 300 interceptadores PAC-3 para seus sistemas Patriot a fim de resistir ao que as autoridades esperam ser mais um inverno de intensos ataques russos com mísseis e drones contra a infraestrutura de eletricidade, gás e água da Ucrânia.

A Ucrânia havia iniciado o verão com um otimismo incomum depois que seus ataques de longo alcance contra instalações de energia russas desencadearam a pior crise de combustíveis do país desde o colapso da União Soviética e pareceram colocar Kiev em uma de suas posições mais fortes desde 2022.

Mas esse impulso agora corre o risco de perder força antes do inverno, enquanto a cautela dos EUA quanto a uma escalada e os estoques reduzidos dos aliados deixam a Ucrânia exposta à crescente campanha de mísseis de Moscou.

Os estoques ucranianos de interceptadores diminuíram justamente quando Moscou aumentou a produção e o uso de seus mísseis balísticos. As forças russas lançaram um recorde de 198 mísseis balísticos e hipersônicos em julho, segundo Vadim Skibitski, vice-chefe da agência de inteligência militar ucraniana HUR. Ele afirmou que a Rússia vinha produzindo cerca de 60 mísseis balísticos por mês, mas que, em julho, fabricou pelo menos 65.

Zelenski apelou a parceiros europeus que mantêm estoques substanciais de interceptadores Patriot, como Espanha e Grécia, para que enviem mais unidades à Ucrânia.

No entanto, depois que a guerra com o Irã reduziu os estoques de interceptadores dos EUA e de seus aliados no Golfo — estoques cuja reposição provavelmente levará meses ou anos —, muitos dos parceiros de Kiev temem ficar sem suprimentos suficientes.

Magdalena Sobkowiak-Czarnecka, vice-ministra da Defesa da Polônia, disse que Varsóvia estava a poucos dias de tomar uma decisão sobre o envio de um lote de interceptadores Patriot à Ucrânia.

O presidente dos EUA, Donald Trump, parece ter recuado em relação a um acordo firmado na cúpula da Otan na Turquia, no mês passado, para conceder à Ucrânia uma licença que permitiria produzir interceptadores Patriot em território ucraniano e na Europa.

Durante a reunião de Zelenski com Trump na Casa Branca no fim de julho, o presidente dos EUA não concordou em fornecer interceptadores adicionais para os sistemas de defesa aérea Patriot a fim de cobrir os próximos meses, segundo pessoas a par das conversas.

Sergii Kyslitsia, vice-chefe do gabinete presidencial da Ucrânia que participou da reunião no Salão Oval, disse que Trump não havia rejeitado o pedido de Zelenski. “Não houve um ‘não’”, afirmou, acrescentando que Kiev ainda esperava que os EUA fornecessem mais mísseis. Mas a autorização ainda não foi concedida.

Ao falar com seus principais assessores militares e de segurança em Kiev no início de agosto, um Zelenski frustrado disse que a política poderia estar influenciando as decisões sobre o fornecimento de interceptadores. “Talvez essas também sejam medidas políticas para tornar a Ucrânia mais, digamos, submissa.”

Veículo: Folha Uol

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/escassez-de-interceptadores-dos-eua-deixa-ucrania-exposta-a-misseis-russos.shtml

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *