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Passado nazista na Ucrânia reabre crise com a Polônia

Igor Gielow

São Paulo

A decisão do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, de batizar uma unidade militar com o nome da força responsável por estimadas 100 mil mortes de poloneses com apoio dos nazistas na Segunda Guerra Mundial reabriu uma crise com sua aliada Polônia.

Na sexta-feira (19), o presidente polonês, Karol Nawrocki, retirou a mais alta condecoração do país de Zelenski após o colega dar a uma unidade que luta contra a invasão russa o nome de Exército Insurgente Ucraniano (UPA, na sigla local).

Ativistas de extrema direita ucranianos fazem a saudação e empunham bandeiras do UPA em protesto contra parada LGBT em Kiev, em 2025 – Serguei Supinski – 14.jun.25/AFP

Entre 1943 e 1944, o UPA promoveu o que Varsóvia chama de limpeza étnica de regiões no oeste da Ucrânia, então na linha de frente entre as ocupações nazista e do domínio da União Soviética. No processo, morreram milhares de pessoas, algo que Kiev reconhece, mas não aceita a denominação polonesa de genocídio.

A Ucrânia fala em “tragédia de Volínia e Galícia”, nome das regiões afetadas, e lembra que milhares de cidadãos do país morreram em represálias.

Adversário do presidente Nawrocki, um trumpista eleito neste ano, o premiê pró-europeu Donald Tusk pediu para os dois lados abandonarem o debate, que chamou de “erro estratégico”.

Já Zelenski negou a intenção de ofender os vizinhos e dizendo que seu decreto foi só uma homenagem à bravura dos soldados, mas disse que se a Ucrânia perder a guerra contra a Rússia a Polônia ficará sem uma proteção natural contra Vladimir Putin.

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Não é a primeira vez em que o passado na Ucrânia assombra Zelenski, que até por ser judeu rejeita a acusação de Moscou de liderar um governo neonazista. A pecha é parte do discurso do Kremlin para justificar a agressão iniciada em 2022, e integra um movimento maior de Putin para buscar reescrever a história de modo mais favorável a Moscou.

Com a Guerra da Ucrânia, isso foi intensificado e correlações entre a libertação da Europa do nazifascismo pelo Exército Vermelho e o conflito atual são correntes no discurso público russo.

A questão se complica porque diversas unidades de Zelenski prestam homenagens a forças que lutaram contra os soviéticos e viram a invasão nazista de 1941 como uma oportunidade de se livrar do jugo de Moscou. A Ucrânia foi o segundo país mais importante dos 15 que integravam o império comunista (1922-1991).

O caso mais notório é o do Batalhão Azov, que adota simbologia e discurso neonazistas. Tanques ucranianos costumam ter uma cruz que lembra a das Forças Armadas de Adolf Hitler, e há um culto oficial à memória de Stepan Bandera (1909-1959), líder nacionalista fascista que lutou contra os soviéticos.

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Em 2023, Zelenski foi duramente criticado por ter aplaudido de pé no Canadá um veterano ucraniano que serviu nas forças de combate voluntárias das SS, a organização que levou a cabo o Holocausto.

No caso do UPA original, o legado é mais matizado. Um de seus motes era “Não a Ioska [apelido de Josef Stálin] e não a Fritz [nome derrogatório para alemães]”, e de fato em vários momentos suas forças combateram tanto nazistas quanto soviéticos.

Mas as alianças pontuais com os nazistas visando o controle territorial para o pós-guerra viraram o mote da rivalidade, explorada também por Moscou desde então. Já ucranianos apontam para o fato de algumas unidades de voluntários russos hoje serem de ultradireita.

O tema é especialmente sensível na Polônia, hoje o país da Otan que mais gasta proporcionalmente com defesa, por ter tido o território dividido entre soviéticos e nazistas nos dois anos de vigor do pacto entre Hitler e Stálin, de 1939 a 1941.

Kiev, por sua vez, acusa Varsóvia de limpeza étnica devido à deportação de 140 mil ucranianos étnicos em 1947, sob a acusação de fomentarem separatismo. Ainda assim, Zelenski havia tentado fazer um gesto aos vizinhos na semana passada, dando permissão para a exumação de poloneses massacrados em um distrito de Volínia.

Veículo: Folha Uol

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/06/passado-nazista-na-ucrania-reabre-crise-com-a-polonia.shtml

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