Valle del Guamuez (Colômbia) | AFP
Cerca de cem guerrilheiros entregaram suas armas nesta quinta-feira (18) em uma região de floresta no sul da Colômbia, no âmbito de uma negociação com o presidente de esquerda Gustavo Petro, que faz seus últimos esforços para salvar sua questionada política de paz.
A três dias do segundo turno que definirá o próximo presidente, a entrega das armas é o primeiro passo para que os rebeldes possam se instalar em uma zona especial onde esperam consolidar negociações com o governo.
Membros do grupo guerrilheiro CNEB entregam suas armas durante cerimônia de desarmamento acordada com o governo colombiano no município de Valle del Guamuez – Raul Arboleda – 18.jun.2026/AFP
O ato também representa o maior avanço da política de “paz total” de Petro, o primeiro governante de esquerda da Colômbia, que tentou sem sucesso negociar com todos os grupos armados do país.
Vestidos com uniformes camuflados, 99 rebeldes da Coordenadora Nacional Exército Bolivariano (CNEB) deixaram seus fuzis em um grande contêiner com a inscrição “Aposta na vida, cumpro a paz”, em meio à floresta no departamento de Putumayo, no sul do país.
“Estou muito feliz, mal consigo conter a alegria de saber que não vamos mais ficar longe da família”, disse um rebelde sob condição de anonimato.
No domingo (21), os colombianos elegerão o presidente entre o senador Iván Cepeda, aliado de Petro que promete dar continuidade à iniciativa de paz, e o ultradireitista Abelardo de la Espriella, defensor do fim de qualquer tipo de aproximação com as organizações ilegais.
Petro entregará o poder em 7 de agosto.
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Entre os dissidentes do acordo de 2016 que desarmou as Farc, este é o único grupo guerrilheiro que avança sem contratempos nas negociações de paz com Petro.
O governo estima que a CNEB tenha entre 2.000 e 2.500 integrantes.
Embora a CNEB domine territórios estratégicos para a produção de drogas na fronteira com o Equador, ela é pequena quando comparada ao Exército de Libertação Nacional (ELN) ou a outras dissidências das Farc, como a liderada por Iván Mordisco, o rebelde mais procurado do país.
É “uma mensagem muito forte e muito poderosa para a sociedade colombiana nesta época em que há muito barulho de guerra”, afirmou Armando Novoa, chefe da delegação de paz do governo junto à CNEB.
Os rebeldes permanecerão durante dez meses nesse terreno, onde anteriormente havia plantações de coca, aguardando avanços sobre seu desarmamento definitivo e sua situação jurídica.
A entrega de armas é incomum nesse tipo de negociação na Colômbia, país marcado por seis décadas de conflito armado. As Farc fizeram isso apenas um ano após a assinatura do acordo de paz.
Em Putumayo, os guerrilheiros receberam kits de higiene e livros antes de ingressarem na zona onde permanecerão em casas equipadas com painéis solares, sob a proteção da unidade estatal de escoltas.
As forças militares os transportaram de helicóptero de territórios remotos até uma região do Valle del Guamuez, localidade onde permanecem a partir desta quinta.
Entre os dissidentes do acordo de 2016 que desarmou as Farc, este é o único grupo guerrilheiro que avança sem contratempos nas negociações de paz com Petro.
O próximo presidente poderá decidir encerrar a mesa de negociações, o que faria com que eles perdessem benefícios como a suspensão dos mandados de prisão.
Os rebeldes reunidos em Putumayo obedecem às ordens de Walter Mendoza, ex-integrante das Farc que assinou o acordo de paz, mas que voltou a pegar em armas em 2019 e que não participou do evento.
“Sinto-me orgulhoso de contribuir para a paz”, disse o guerrilheiro conhecido como Ferney, carregando sua mochila nas costas. “Meu desejo é me preparar em alguma profissão para nunca mais voltar a praticar nada ilícito nesta vida.”
Petro tem se recusado a extraditar comandantes guerrilheiros comprometidos com os processos de paz na Colômbia, o que tem gerado descontentamento em Washington.
O presidente Donald Trump apoia abertamente Espriella nas eleições, em meio à pior onda de violência da última década.
Espriella propõe uma política de “mão de ferro” para enfrentar rebeldes e narcotraficantes no país que mais produz cocaína no mundo.
Veículo: Folha Uol












