- Novo sistema operacional da cultura oferece oportunidades para quem sai da inércia
- Modelos de linguagem são como carboidratos que, em excesso, podem levar a doenças
Cada época tem suas alegorias preferidas. A nossa consagrou o computador: do cérebro ao universo, tudo pode ser um computador. Inclusive a cultura. Nessa visão, modelos de linguagem são o novo sistema operacional da realidade social e a resposta ao prompt é a memória RAM, que perde continuidade como quem se enrola num raciocínio.
As interfaces se multiplicam das telas para a voz e até para as ondas cerebrais. Os periféricos incluem vídeo, texto e exame médico, com o corpo já convertido em dado. As saídas seguem para outros executores, hoje chamados de agentes, e também para nós, que carregamos o cérebro como tábua de registro.
A posição reconfortante nesse mundo em que tudo é IA é a passividade diante dos registros que se inscrevem na gente. Afinal, já não é preciso pesquisar fontes diversas ou sustentar a demora de uma dúvida.
O conhecimento surge formatado para consumo depois de um pedido rápido e, com uma pitada de autoengano, é fácil se orgulhar de uma ideia no fundo forjada pela IA. Para piorar, o valor social da erudição perde terreno, como se formar repertório próprio fosse uma mania de outro tempo.
Há uma diferença abissal entre escrever por dentro desse sistema operacional e ser escrito pelo conhecimento embarcado nele. De um lado, trata-se de inscrever tendências, puxar combinações, produzir desvios; de outro, de ser atravessado pelo repertório médio que a máquina devolve com cara de pensamento próprio. A separação se percebe nos raciocínios e nas formas de expressão que, ao longo de anos, favorecem destinos muito diferentes.
LLMs são os carboidratos do nosso tempo: uma explosão de energia que, quando vira dieta inteira, termina em diabetes. Para quem começa agora, no jornalismo ou em outra área intelectualizada, a armadilha está posta. A IA encurta caminhos e refina textos. Mas há um ponto em que o atalho deixa de levar alguém a algum lugar e passa a ocupar o lugar do caminho. Esse é o lado perverso de se firmar como processador central da cultura.
A história, no entanto, não acaba aí. A velha cultura também repete seus próprios automatismos, e para cada uso fértil da tecnologia cognitiva aparece uma procissão de críticas mais ou menos iguais. As oportunidades para quem sai da inércia e produz desvios são maiores do que nunca.
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Publicado em 2026-06-01 23:11:00
Fonte: Folha de S.Paulo
Veículo: Folha Uol











