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Empresas distribuem vale IA a funcionários para teste de ferramentas inovadoras

Varejista Magalu já levou 180 projetos de IA para produção desde 2025
Nubank investe cerca de US$ 500 mil por semana para funcionários usarem chatbots

Funcionários de grandes empresas passaram a receber uma espécie de mesada para gastar com modelos de inteligência artificial. Como em uma feira de ciências, a proposta é de que eles testem ideias para criar ferramentas valiosas para os seus patrões.

Na Nvidia, companhia que mais ganhou dinheiro com o boom da IA, cada funcionário pode gastar até US$ 10 mil (R$ 52 mil) ao mês. Documentos vistos pela reportagem mostram que o Nubank investe cerca US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões) por semana para os seus colaboradores usarem plataformas como ChatGPT e Claude. Esses investimentos são tratados no mercado como “vales IA”.

Levando-se em consideração que o Nubank tem 9.000 funcionários, isso equivaleria a cerca de R$ 1.000 por trabalhador por mês. Esse é um valor que varia conforme o mês. Um boletim interno visto pela Folha sobre o uso da tecnologia mostra que os funcionários que mais usam os chatbots nas suas atividades são destacados.

Ilustração – Catarina Pignato

As métricas de uso de IA são citadas junto a relatórios de desempenho, que consideram, por exemplo, o quanto de economia e de receita o colaborador gerou para a empresa. Esses dados ajudam gestores na avaliação dos funcionários.

Procurado pela reportagem, o Nubank não quis comentar o assunto.

Um temor de outros diretores dedicados à inteligência artificial é de que os funcionários usem os créditos em plataformas de IA para atividades que não tenham a ver com o trabalho, como ocorreu na Amazon. Reportagem do Financial Times mostrou que os trabalhadores da empresa estavam inventando tarefas para inflar seus números em relatórios internos.

Um homem está sentado em uma mesa de reunião, gesticulando com as mãos enquanto fala. Ele usa uma camisa de botão clara e um relógio no pulso. Ao fundo, há uma tela com gráficos coloridos em um ambiente de escritório moderno. Na mesa, há um caderno e um celular.

Retrato de Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza – Bruno Santos -03.abr.25/Folhapress

Para evitar pressionar os funcionários, a Magalu aloca os créditos por área de operação, e os gestores incentivam a adoção das melhores ideias vindas das experiências dos funcionários. O CEO da varejista, Frederico Trajano, afirma que já investiu algumas dezenas de milhões de reais em “tokens”, que são fragmentos da informação processados pelos modelos usados como base para a cobrança. A palavra desalinhado, por exemplo, tem três tokens: “des”, “alinh” e “ado”. “É pouco perto do nosso capex [investimento] anual, que está na casa de R$ 1 bilhão”, afirmou.

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Embora não tenham metas, os funcionários da Magalu também são estimulados a testar ideias na “feira de ciências da IA” similar à que propõe o Nubank. Os mais de 20 mil empregados têm acesso a ferramentas de IA de ponta e podem colocar seus projetos em uma plataforma controlada pelo diretor de inteligência artificial da companhia, Caio Gomes.

Até o momento, a varejista já testou mais de 250 projetos e levou 180 deles para a linha de produção desde o ano passado. “Nossa estratégia prioriza a experimentação prática em vez de núcleos de inovação isolados, porque assim temos a adoção natural da tecnologia em diversas áreas. As soluções nascem com as dores das equipes”, afirma Gomes.

O executivo diz que as empresas estão desbravando um novo cenário, e os pioneiros devem obter resultados primeiro. “A coisa boa é que o mato está tão alto agora que quase qualquer coisa que você faz traz um resultado nesse momento”, disse.

A oferta de créditos de IA reflete uma ansiedade capturada em dados da consultoria Korn Ferry: 40% dos líderes de recursos ainda não sabem o que será da força de trabalho com a IA. Para evitar a dependência de talentos caros —que chegam a custar 15% a mais do que a média— as empresas tentam transformar o funcionário comum em um “alfabetizado em dados” na marra.

Gomes destaca o trabalho de sua equipe na criação do “WhatsApp da Lu”, uma experiência de compras conversacional que permite realizar todo o processo —da busca ao pagamento— dentro do aplicativo de mensagens.

O projeto, citado como um caso de inovação mundial pela Meta, resolve desafios complexos de busca, como encontrar peças específicas a partir de descrições informais. “Um rapaz me mostrou que conseguiu encontrar a pedaleira de contrabaixo que queria dizendo à Lu no WhatsApp que queria ‘uma pedaleira com o som do artista tal’. Ele teclou e apareceu o equipamento que ele queria”, exemplificou Gomes.

Além da interface com o cliente, a IA tem gerado ganhos de eficiência em áreas operacionais e corporativas no Magalu. O financeiro, por exemplo, consegue diminuir o tempo de pagamentos de semanas para minutos. A área de recursos humanos, por sua vez, conseguiu automatizar a validação de contratos e acelerar o acesso a informações de sistemas internos.

Conheça principais modelos de inteligência artificial disponíveis na internet

Como tem a própria estrutura de data centers e computação em nuvem, a Magalu combina modelos de código fechado, como o Gemini, do Google, com modelos de código aberto que rodam na infraestrutura própria da Magalu Cloud. Essa estratégia evita que a varejista acabe presa ao sistema de terceiros —existe um custo significativo de transferência para fazer a migração de dados entre empresas de nuvem.

O aumento do uso da tecnologia pelas empresas é confirmado pelos números dos principais provedores da tecnologia, como Google, OpenAI e Claude. Os sistemas do Google entregam 16 bilhões de tokens por minuto —numa conta simples, isso significa 8,4 quatrilhões de tokens ao ano.

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O Google, por exemplo, cobra entre US$ 1,50 e US$ 60 por cada 1 milhão de tokens criados. O preço varia dependendo do modelo usado ou da mídia gerada —imagens e vídeos são mais caros do que textos.

O líder de vendas de IA para América Latina do Google Cloud, Marcel Silva, diz que, entre os clientes do Google, a fase de “feira de ciências” já está ficando para trás. “A gente já está em um momento de transição na inteligência artificial, as empresas experimentaram, colocaram os projetos em produção e agora devem escalar.”

Já o diretor comercial da Nvidia para a América Latina, Marcio Aguiar, diz que a sua empresa continua patrocinando experimentos. Cada funcionário recebe US$ 10 mil ao ano para se familiarizar com a tecnologia. No caso dos engenheiros, o valor é ainda maior: metade do salário anual.

“Para mim, que sou do comercial, é fundamental entender os detalhes do produto que eu estou vendendo”, afirmou Aguiar. Ele contou que estava desenvolvendo um agente para ler seus e-mails e resumir só o que fosse relevante, de acordo com instruções prévias.

Veículo: Folha Uol

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/tec/2026/05/empresas-dao-vale-ia-a-funcionarios-para-teste-de-ferramentas.shtml

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