Megan Specia Koba Ryckewaert
Londres | The New York Times
Pouco antes da meia-noite do dia 23 de março, um carro vazio foi incendiado no bairro judeu de Antuérpia, na Bélgica, rompendo a quietude da noite.
A polícia prendeu rapidamente dois adolescentes. Várias horas depois, imagens borradas do incêndio criminoso apareceram na internet, mostrando uma pessoa derramando líquido sobre um carro e uma segunda pessoa ateando fogo nele.
No vídeo, um grupo que era desconhecido há apenas alguns meses assume a responsabilidade. O grupo, que se autodenomina Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiyya, também assumiu a responsabilidade por uma série de outros ataques em toda a Europa, incluindo um na quarta-feira, no qual duas pessoas foram esfaqueadas em uma área judaica de Londres.
Militares belgas patrulham a rua de uma sinagoga na Antuérpia, Bélgica – John Thys – 23.mar.26/AFP
Agora, autoridades antiterrorismo afirmam estar investigando se o grupo tem ligações com o Irã —e se esses atos criminosos são a mais recente manifestação de guerra assimétrica por parte do Irã ou de outro agente maligno, todos utilizando métodos de baixo custo e pouco sofisticados para semear o medo nas comunidades judaicas por toda a Europa.
Os acusados de realizar os ataques não pareciam ter lealdade a uma causa extremista e provavelmente foram recrutados para agir com a promessa de dinheiro, afirmam autoridades policiais e advogados.
Chantal Van den Bosch, advogada de um dos adolescentes acusados no caso de Antuérpia, disse em entrevista que seu cliente “não tinha ideia” de que o incêndio criminoso seria filmado e compartilhado online e que ele havia participado para ganhar “dinheiro rápido”. “Eles são basicamente bucha de canhão. Estão sendo usados”, disse ela.
Os promotores se recusaram a comentar suas afirmações. Os investigadores do caso não divulgaram detalhes além de um comunicado inicial à imprensa.
As suspeitas das autoridades sobre o envolvimento do Irã ou de um de seus representantes no Iraque sugerem que a guerra no Oriente Médio está causando um efeito cascata inesperado em toda a Europa. Os crimes pelos quais o grupo assumiu responsabilidade não causaram mortes e, até os esfaqueamentos de quarta-feira, nenhum ferido (embora esse último ataque não se encaixasse no padrão dos anteriores, apontaram analistas, e a reivindicação de responsabilidade possa ser falsa). Os danos materiais foram limitados.
Mais
Mas os episódios forçaram as autoridades a mobilizar recursos de inteligência e a recorrer a equipes policiais para investigar, sobrecarregando os recursos limitados. E no Reino Unido, na quinta-feira, as autoridades elevaram o nível de ameaça nacional de “substancial” para “grave”, o que significa que um ataque terrorista é altamente provável nos próximos seis meses.
Mais de uma 12 ataques nos últimos dois meses no Reino Unido, Holanda, Bélgica, França e Alemanha, a maioria tendo como alvo a comunidade judaica, foram reivindicados online pelo Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiyya, também conhecido como Movimento Islâmico dos Companheiros da Direita. Entre eles estão explosões em escolas judaicas e do lado de fora de sinagogas na Bélgica e na Holanda, além de veículos incendiados em várias cidades europeias. Ainda assim, não se sabe se o grupo está realmente por trás de cada um dos ataques.
Adrian Shtuni, pesquisador associado do Centro Internacional de Contraterrorismo, que vem acompanhando o grupo, disse que as táticas, a escolha dos alvos e a dispersão geográfica, bem como as redes específicas que divulgam as reivindicações, “apontam fortemente na direção do Irã”.
Os ataques, principalmente noturnos contra alvos judeus ou ligados a Israel, são calibrados para “gerar medo e pressão psicológica sem provocar uma escalada significativa” —uma característica marcante dos esforços híbridos ligados ao Irã, disse Shtuni. E, em muitos casos, os acusados de cometer os crimes são adolescentes ou jovens adultos provavelmente recrutados “por meio de canais casuais da ‘economia gig’ online, como Snapchat ou Telegram”, afirmou.
Lá Fora
A guerra híbrida envolve táticas —incluindo ataques cibernéticos, sabotagem, assassinato e campanhas de desinformação— que são usadas secretamente para desestabilizar países, minar a confiança nas instituições e enfraquecer adversários sem provocar uma resposta militar significativa.
“Não se trata de terroristas treinados ou agentes ideologicamente comprometidos”, disse Shtuni. “São moradores locais comuns contratados por pequenas quantias em dinheiro para realizar atos de violência e intimidação direcionados.”
A Embaixada do Irã em Londres não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Os ataques aumentaram o medo entre os judeus em toda a Europa. A polícia reforçou a segurança em sinagogas e outros locais judaicos. Em cidades belgas, soldados foram mobilizados ao lado da polícia para proteger instituições judaicas desde meados de março.
Em Londres, houve uma série de episódios antissemitas, principalmente em uma área da cidade que abriga pouco mais da metade dos cerca de 300 mil judeus do Reino Unido.
Mais
Quatro ambulâncias que prestavam serviços a uma instituição de caridade judaica foram incendiadas em frente a uma sinagoga no norte de Londres, em 23 de março. Em seguida, em um intervalo de quatro dias em meados de abril, houve um incêndio criminoso na Sinagoga Reformista de Finchley, um suposto incêndio criminoso em um local antes usado por uma instituição de caridade judaica, um incêndio criminoso na Sinagoga Unida de Kenton e um ataque a uma emissora de língua persa —todos reivindicados pelo Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiyya.
Na semana passada, quatro homens de Londres —com idades entre 17 e 20 anos— compareceram a um tribunal londrino para uma audiência, acusados de incêndio criminoso e de terem incendiado as quatro ambulâncias.
Um promotor afirmou que três deles foram vistos em um vídeo ateando fogo nos veículos, causando, no total, mais de 1 milhão de libras (R$6,7 milhões) em danos, enquanto o quarto dirigia o carro de fuga. Um dos homens disse que nunca havia sido preso ou acusado de nenhum outro crime. Todos os quatro serão julgados no início do próximo ano.
A polícia antiterrorismo do Reino Unido prendeu um total de 28 pessoas em relação à série de ataques, e oito foram acusadas de crimes relacionados a incêndio criminoso, informou a Polícia Metropolitana de Londres em comunicado na quarta.
Cercanías
Havia preocupações crescentes sobre esses tipos de ataques, mesmo antes de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã há dois meses, desencadeando uma guerra no Oriente Médio. Ken McCallum, diretor-geral do MI5, o serviço de inteligência interna do Reino Unido, disse em uma avaliação de outubro de 2025 que a agressão transnacional iraniana estava em ascensão, e que sua agência havia sido forçada a intensificar seus esforços para combatê-la.
Vicki Evans, coordenadora nacional sênior da polícia antiterrorismo do Reino Unido, disse a repórteres na semana passada que a polícia estava investigando a ameaça de agressão estatal iraniana nos ataques recentes. Ela apontou o “uso rotineiro de intermediários criminosos” pelo regime iraniano e disse que a polícia “está avaliando se essa tática está sendo usada aqui em Londres —recrutando violência como um serviço”.
Ao usar uma rede informal de intermediários descartáveis, disse Shtuni, os Estados ou redes podem criar ameaças difíceis de rastrear e ainda mais difíceis de impedir. “Sua aparência amadora é uma característica, não uma falha”, disse Shtuni. “Isso reflete uma evolução deliberada na guerra híbrida que prioriza a negação, a escalabilidade, o impacto psicológico e a persistência em detrimento de ataques dramáticos que matam um grande número de pessoas.”
Dave Rich, diretor de políticas do Community Security Trust, uma instituição de caridade britânica que monitora o antissemitismo e coordena medidas de segurança em instituições judaicas, disse que, independentemente do modelo dos ataques, eles constituem antissemitismo.
“É o modelo de Estados hostis, e não um tipo de extremismo ativo mais orgânico por parte de pessoas que são elas próprias extremistas”, disse Rich, mas acrescentou: “A polícia tem sido muito, muito clara ao afirmar que está tratando esses casos como antissemitismo e crimes de ódio.”
Veículo: Folha Uol













