Geoff DyerAmy MackinnonJude Webber
Dublin e Washington
O governo Trump aumenta a pressão para que Cuba abra sua economia e permita maiores liberdades políticas para os americanos.
Mesmo com o conflito no Irã em andamento, os Estados Unidos mobilizam um arsenal de instrumentos —sanções, indiciamentos e promessas de ajuda— para ditar o ritmo das negociações nas próximas semanas.
Em uma visita surpresa à ilha na quinta-feira (14), o diretor da CIA, John Ratcliffe, transmitiu a mensagem de que Cuba tinha uma “rara chance de estabilizar sua economia em colapso”, segundo um funcionário dos Estados Unidos.
Protestos emergem na capital Havana com a escassez de combustível provocando apagões na ilha – Norlys Perez/Reuters
Também houve uma ameaça implícita de que os EUA poderiam recorrer ao tipo de ação militar que usaram na Venezuela em janeiro, quando Nicolás Maduro foi capturado e levado para o território americano, onde aguarda julgamento.
O investigador disse que Cuba não deveria “se iludir pensando que o presidente não cumprirá suas ameaças”. Os governos estão em negociação desde fevereiro, mas depois de sinais iniciais de avanço, o governo americano sinaliza nas últimas duas semanas que está cada vez mais frustrado.
Um funcionário dos EUA disse que a Casa Branca teme que os cubanos estejam tentando ganhar tempo, uma vez que conflito com o Irã se prolonga e as pesquisas de opinião preveem resultados positivos para os adversários democratas nas eleições em novembro.
Washington está pressionando Cuba para tornar sua economia mais liberal, permitindo mais investimento estrangeiro e o aumento do setor privado, além de pedir a libertação de presos políticos e reformas políticas.
Bloqueios dos Estados Unidos afetam vidas de pacientes em Cuba

Analistas avaliam que Havana dá sinais de engajamento com possíveis negociações: o regime cubano divulgou a visita do chefe da CIA antes dos próprios americanos —no passado, negou reuniões do tipo— e soltou presos políticos.
Em comunicado publicado na sexta-feira (15) pelo Granma, o jornal oficial do Partido Comunista, o regime disse que durante a reunião havia “demonstrado categoricamente que Cuba não constitui uma ameaça à segurança nacional dos EUA”, como o governo Trump argumentou, e que não havia razão para incluí-la na lista de países que apoiam o terrorismo.
Mesmo que as negociações aparentem estar estagnadas nas últimas semanas, os EUA aumentaram a pressão econômica sobre Cuba: o país dificulta a obtenção de quantias importantes governo da ilha.
Os EUA impuseram novas sanções à empresa controlada por militares que é responsável pela manutenção de parte importante da economia cubana, a Gaesa —o conglomerado atua no comércio, no turismo, nas finanças e na logística da nação.
Os americanos também ampliaram o escopo de possíveis sanções secundárias sobre empresas internacionais que atuam em Cuba. A decisão levou a companhia canadense Sherritt a sair de uma joint ventura de mineração de níquel e cobalto em território cubano. Hotéis administrados por empresas estrangeiras também podem ser afetados.
Um bloqueio energético imposto pelos EUA também começa a impactar a economia. O regime cubano afirmou que estava sem diesel e óleo combustível. Houve protestos contra apagões em partes do país. Cidadãos cubanos relatam clima tenso causado pela crise econômica e pela sensação de incerteza política.
“[Os apagões são intermináveis](https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/05/cubanos-protestam-em-meio-a-nova-serie-de-apagoes-causados-por-embargos-dos-estados-unidos.shtml). Há água por uma hora por dia e às vezes até menos”, disse Jorge, um artista que trabalha como vigia noturno em Havana. “O governo dos EUA ainda não definiu o que vai fazer, enquanto os daqui não largam o osso.”
Os EUA estão buscando outras formas de pressionar Havana. A mídia americana noticiou que o Departamento de Justiça americano está se preparando para indiciar Raúl Castro, que aos 94 anos ainda é a autoridade máxima na política cubana.
Em um “morde e assopra”, Washington oferece ajuda econômica aos cubanos. Na quarta-feira, os EUA ofertaram US$ 100 milhões (R$ 506 milhões) em assistência humanitária direta, a serem distribuídos pela Igreja Católica e outras organizações independentes do governo.
Em entrevista à Fox News, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, mostrou-se cético quanto à capacidade de Cuba mudar de rumo sob sua atual liderança. “Vamos dar uma chance a eles. Mas não acho que vai acontecer”, disse. “Não acho que seremos capazes de mudar a trajetória de Cuba enquanto essas pessoas estiverem no comando daquele regime.”
Cuba em crise energética e sob ameaça dos EUA

Especialistas em Cuba disseram que, embora a pressão sobre Havana esteja crescendo, o regime pode tentar absorver a dor econômica. “Eles têm muita dificuldade em acreditar em um futuro para Cuba onde não estejam no comando”, disse Ricardo Zúniga, ex-alto funcionário do governo Obama, sobre a elite política cubana.
Especialistas debatem se existe alguma estratégia militar que possa provocar em Cuba a mudança política que os EUA esperavam alcançar em janeiro na Venezuela.
“Posso dizer aqui que não consigo imaginar uma operação militar em Cuba para mudar o governo que não envolvesse algum tipo de ocupação”, disse um ex-alto funcionário americano. “No entanto, também tenho que ser honesto e dizer que não poderia ter imaginado o que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro.”
Porém, alguns observadores acreditam que a pressão militar poderia alcançar resultados rápidos devido à impopularidade do regime. “O povo deseja que os americanos assumam o controle”, disse Emilio Morales, presidente do Havana Consulting Group em Miami.
Veículo: Folha Uol
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/05/donald-trump-aumenta-a-pressao-dos-eua-sobre-cuba.shtml











